Porcelana ou porcelanas?
As primeiras peças de porcelana que chagaram à Europa causaram assombro devido, fundamentalmente , a duas propriedades inexistentes na cerâmica até então conhecida: a translucidez e o som por ela produzido ao serem tocadas. Isto fez que ambas características se associassem ao termo "porcelana", de modo que posteriormente, qualquer material cerâmico que possuísse uma ou ambas características era erroneamente qualificado como porcelana. O mesmo acontece, por exemplo, com a chamada massa mole e com o grés.
A massa mole, foi fabricada pela primeira vez em Florença, por volta de 1575 e com ela foram produzidas as porcelanas conhecidas como Porcelana dos Médicis. Fazem parte de sua composição pós de vidro, alabastro, cal, mármore, esteatita e outros tipos de argilas locais que determinam e diferenciam os vários centros produtores. Assim, em Capodimonte usava-se terra de Frascaldo; em Mennecy, a chamada massa de Barbin e, nas fábricas inglesas, cinzas de ossos queimados que dão à massa um característico tom acinzentado. Porém, estes elementos sempre se fundem a uma temperatura máxima de 1.100 oC e a impermeabilização da peça é feita por uma camada de vernizes de chumbo que nunca se misturam com a massa. As cores empregadas na decoração devem ser frias e o azul deve ser sempre celeste. O grés surgiu pela primeira vez na China durante a dinastia Shang (século VI d.C.) e sua semelhança com a porcelana é tão grande que, assim como ela, também é chamado de yao.. Na Europa, o grés foi descoberto de modo acidental, sem se conhecer a sua existência na China, no século XII, na região da Renania e, a partir do século XIV, passou a ser fabricado em quase toda a Europa Central e Inglaterra. Na verdade, a primeira porcelana feita em Meissen, no século XVIII era grés, pois sua massa fora submetida a uma temperatura mais baixa que a necessária para a fabricação da autêntica porcelana.
Diferente da porcelana, o grés não é branco, mas apresenta tonalidades cinzas ou avermelhadas e , além disso, tampouco é translúcido ou poroso. Sua massa é feita com feldspato e argila e é queimada a uma temperatura de cerca de 1200°C, suficiente para vitrificar a pedra mas não a argila. Para impermeabilizar a peça é necessário cobri-la com um verniz feldspático.
Além das tradicionais sedas e das especiarias bastante apreciadas, as caravanas traziam da China uns objetos que logo foram muito cobiçados pelas classes européias mais poderosas. Tratava-se fundamentalmente de vasos e outros recipientes que possuiam um extraordinário brilho e eram adornados com desenhos pintados em cores luminosas. Ainda que, evidentemente, em quase toda a Europa se fizesse há tempos vasos e figuras de cerâmica de formas similares que, na época, já possuíam uma grande beleza, apreciava-se a grande diferença entre aqueles e os que agora vinham do Oriente.
A particularidade residia no fato de que os vasos chineses eram feitos com um material desconhecido até então na Europa, ao qual os italianos denominaram porcellana que, apesar de também se tratar de uma massa cerâmica, era de uma leveza maior do que qualquer uma das conhecidas até então no Velho Continente, tanto que acabava sendo quase translúcida. Era também extremamente frágil, apesar de ser bastante dura, e tinham conseguido, por métodos totalmente ignorados até então, dar-lhe um intenso brilho e adorná-la com figuras de cores realmente extraordinárias. Por todos estes motivos, os vasos e as figuras de porcelana procedentes da China se converteram em pouco tempo em objetos quase tão cobiçados pela nobreza quanto o ouro.
Ainda que as porcelanas orientais que chegaram à Europa no século XIV em geral pertencessem ao período da dinastia Yuan (1297-1368), a arte de fabricar este tipo particular de cerâmica na China remontava à dinastia Täng (618-907), período em que apareceram os primeiros ateliês dedicados à porcelana para os palácios imperiais. As técnicas aí utilizadas constituíram segredo sigilosamente guardado durante séculos e, para preservá-lo, os operários trabalhavam em um sistema de escravidão em que a revelação, ainda que apenas parcial, de alguma das técnicas utilizadas era castigada com a morte.
Isto explica, por exemplo, o fato de o segredo da porcelana não só se estender aos longínquos países europeus, mas tampouco às regiões mais próximas. De fato, as primeiras fábricas de porcelana não apareceram na Coréia antes do século XIII; no reino de Annan (atual Vietnã), fizeram-no depois do século XIV e as primeiras porcelanas japonesas remontam unicamente ao século XVII. No entanto, os príncipes europeus tinham se empenhado em conhecer os segredos de tão atraente mistério e, com tal fim, atribuíram imediatamente a tarefa aos seus mais afamados ceramistas.
FONTE: "CAIXAS DE PORCELANA", vol.XV, Salvat Editores
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